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ficção: Contículo Natalino
As pessoas não deveriam morrer no Natal, pensava Manoel enquanto esperava ansiosamente pelo Papai Noel num velório. “Aqui não tem chaminé e nem árvore de natal, mamãe, onde é que o Papai Noel vai deixar os presentes?” perguntou à mãe que estava plantada com os olhos cheios à frente do caixão onde jazia uma tia distante que o menino de seis anos sequer chegara a conhecer. “O Papai Noel não deve gostar de gente triste, e aqui só tem gente chorando...”, prosseguiu, ainda sem a atenção da mãe.
Saiu pisando firme. Deu algumas voltas pelo pequeno salão, machucou algumas flores e por fim sentou-se e abraçou o próprio corpo. Mas logo saltou novamente e foi tentar coloquiar com a mãe. Era a única criança ali e estava inquieta. Planejara não dormir naquela noite pra conhecer pessoalmente o Papai Noel. Pra ver o velhinho rechonchudo e de barba branca e receber dele a roupa do Batman que pedira. Talvez até ganhasse uma voltinha no trenó de renas. Depois, uniformizado, poderia combater o crime. Por isso não podia adormecer. Se o Papai Noel passasse por ali não teria sequer a árvore para deixar os presentes embaixo.
“Mamãe, a que horas o papai Noel vem? Tô com sono”. Manoel apagou antes que a mãe esboçasse resposta. Acordou já na manhã seguinte em sua cama sob o lençol xadrez. Correu descalço pra sala e lá estava, numa caixa retangular larga, seu tão aguardado presente. A mãe disse “Manoel, ele passou por aqui ainda há pouco, mas disse pra te deixar dormindo que você ia precisar de suas energias pra salvar o mundo”. E o menino vestiu-se feliz, apesar do encontro fracassado, e esperou anoitecer pra sair à rua e acabar com os vilões.
Escrito por cesarito às 15h50
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cada qual com seu par
cada par com seu qualquer
posso sonhar contigo
enquanto danças
seguindo a melodia
da velha caixinha de música
Escrito por cesarito às 15h49
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a Pimpão & Brasileiro
ainda que seja próprio
da roda rodar
e do povo sumir,
ainda acho
que era tudo
culpa da morena
Escrito por cesarito às 15h46
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obsoleto
com paus e pedras destruir os chips,
o obsoleto,
e vangloriar a tecnologia
que a humanidade goza desde a gênese
Escrito por cesarito às 15h43
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nouvelle
Já que o carnaval acabou
e tiramos as máscaras
vamos dormir
sem manchar a maquiagem
sem estragar o sorriso
do arlequim sem coração
Escrito por cesarito às 15h40
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O paraíso é lisérgico
nem de árvores & borboletas
nem de frutos & pureza
nem de pecados & serpentes
nem de submissão & beleza,
o paraíso é estruturado em louca & completa lisergia
Escrito por cesarito às 15h31
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pareciam cenas soltas
dum filme onírico
mas me apaixonei
e me abracei a elas
sonhando a realidade
dirigida por mim mesmo
ainda que fossem escuras
eram cenas coloridas
mas não doíam nos olhos, tampouco agradavam à vista
Escrito por cesarito às 15h27
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letra de vinheta 3
Se cada flor amarela cair
no verão
vão dizer que o outono tá chegando
ou vão dizer
que eu não tô mais te esperando
pra casar
Escrito por cesarito às 23h38
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letra de vinheta 2
Eu me apaixonei um dia desses
por uma bailarina de cinema mudo
Escrito por cesarito às 23h30
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letra de vinheta
Bateu à porta
qual felicidade em dias imperfeitos
Trazia uma rosa
qual a tempestade dos mais gentis ventos
Ela se ria do meu riso bobo
e eu ousava brincar
com cada gesto novo
Só sei que o carnaval acabou.
Escrito por cesarito às 23h27
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prosa em versos
Ela está sozinha
& sente falta dos outros.
Ela tem medo
e se desespera
quando fala sozinha
e sua voz
parece ecoar pelo mundo todo.
Mas ela sabe
que ninguém a ouve.
E ela chora um choro silencioso
abraça o próprio corpo
& se delicia com o calor
das lágrimas que vertem-lhe ao seio.
Escrito por cesarito às 23h24
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decadência desmedida
decadência desmedida
quando o caos infundado
expande do ser
transparecendo o medo,
talvez rancor,
sem fantasia
ou qualquer intenção
ou fingimento
o olhar baixo,
o soluço engolido
e toda característica anêmica
é transparente
quando é desmedida a decadência
Escrito por cesarito às 23h15
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Quem se lembra de afrodite?
abaixou-se e viu o céu,
o sol sem brilho duma quinta de maio
que não machuca os olhos
e nem colore a carne,
apenas causa câncer.
talvez a gente pudesse
se encontrar na intersecção das linhas
onde choram os homens
e vão brincar as meninas
feito o trato:
te deixo ganhar
e me deixas lamuriar em paz
vasculhei por todos os cantos,
mas não encontrei mais que teias de aranha
queria me lembrar de afrodite
Escrito por cesarito às 23h10
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Quinteto número dois
súbito, o palhaço
pôs-se firme frente aos holofotes.
sem qualquer movimento
organizou o balet de sombras
numa dança lúdico-lúcida sincronizada.
Escrito por cesarito às 23h05
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poema feliz
outro dia tentei
fazer um poema feliz
com sorrisos no rosto
e brilho nos olhos
e pirulitos de caramelo
e confete & serpentina
e amarelinha
as pessoas brincariam felizes
e as crianças olhariam felizes
e seria um retrato da felicidade
em versos brancos
que talvez tomassem cor
se eu fosse capaz.
Escrito por cesarito às 23h01
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amém? ou questão de ontologia
e se fosse deus?
com minúscula mesmo
substantivo impróprio
próprio da literatura
e sem autonomia ôntica
nem tom de divindade?
Escrito por cesarito às 22h56
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de flores e luzes
psicodélicas
luzes ou flores num copo d’água suja
dum verde musgo
e dum brilho fosco
quem acredita na visão
quando o olfato revela outra cor?
quem acredita no olfato
se a luz escorre entre os dedos,
os sonhos se afogam
e as flores crescem
na água suja?
Escrito por cesarito às 22h55
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ficção: Momentaneamente, Marcella
Marcella usava uma saia muito curta quando juntou os joelhos e me ofereceu o colo pra reclinar a cabeça. Eu estava carente e justamente precisando dum colo pra chorar um pouco, além de ninguém me ouvir tão bem quanto ela. Acho que estava me apaixonando pela metropolitanazinha de olhos verdes e voz estridente. Pelo seu jeito indefectível de pronunciar cada palavra quase que soletradamente e por suas coxas macias e acalentadoras. Sentia-me tão bem entre suas pernas que imaginava poder amá-la a vida toda.
Mas Marcella nunca me confiara mais que as coxas. Nada além de uns poucos pensamentos ou choros internos que insistiam em fugir-lhe ébrios. Conhecia-me e sabia de meus vícios e defeitos. “Pessoas como você são incapazes de amar”, dizia sempre que me ouvia confessar sobre seus joelhos. Mas me passava a mão na cabeça e me enrolava cachos nos dedos, olhando-me tão ternamente que me sentia expurgado de todos os pecados. Às vezes Marcella até me incumbia penitências, que eu nunca cumpria, e jurava que tudo ia ficar bem. E a calma dela, eventualmente, me desesperava e exaltava os ânimos, mas suas coxas sempre me acalmavam mais um pouco e sua voz e o seu jeito de falar me punham no prumo e relaxavam tanto que me esquecia de meu próprio e recente desespero.
E foi naquela tarde tão normal de segunda-feira que a menina resolveu testar-me o fôlego e falar pouco mais de si. Reclamou que minha barba mal-feita fazia-lhe cócegas nas coxas e que meninos não sabem ouvir. “Vocês só querem falar, acho que é algum tipo de necessidade masculina”. Sua mão direita, que normalmente me acariciava a cabeça, passeava-me livremente pelo peito e eu podia ver sua expressão mais firme na fronte estreitamente tímida e triste.
Um “resolvi amar-te hoje” seco foi o que ouvi antes de levantar a cabeça em silêncio e responder pesadamente a Marcella que não queria amá-la. E como explicar pra mim mesmo que consumira minha metropolitanazinha numa tarde sem graça de segunda, quando não almejava mais que lhe confessar alguns pecados do fim de semana e receber a absolvição ou penitência cabível? E como explicar pra menina que preferia passar a vida sobre suas pernas a passar alguns minutos entre elas então?
Marcella levantou-se e ficou quieta. Confessou-me depois ter-se sentido rejeitada e que nunca o fora antes. Que sabia de minha recém-devotada paixão e achava que um pouco de sexo não mudaria nada em nossa indefinível relação. “Você transa com tantas meninas por aí e me narra tudo tão detalhadamente que achei que sexo fosse muito mais banal pra ti”.
Mas naquele momento ela apenas levantou-se e me encarou quieta e assustada. Seus olhões verdes transpareciam o espanto e até certa desilusão. Nunca vira Marcella tão insegura e amedrontada, pra não ter que procurar adjetivo – aliás, os estou usando tanto – que a defina melhor naquela situação, e acredito que nunca mais a verei tão transtornada. “Agora sou muito mais cética e acre pra tudo na vida. Você me ensinou a não ter mais certezas, acabou com certas ingenuidades meu querido filho da puta”. Adoro quando ela fala o que preciso ouvir, mesmo que seja pra me criticar. E gosto mais ainda de ver como Marcella pronuncia, a seu jeito quase perfeccionista, os palavrões mais ternos do mundo.
E Marcella olhou-me estranhamente por alguns instantes e tive vontade de dizê-la mil palavrões e mil gracejos alternadamente, como se não soubesse naquele momento se a amava ou odiava com mais intensidade. Só sabia que dependia dela e de seu colo pra sentir-me bem, por isso precisava ter Marcella ao meu lado e não sob mim. Ela fez que compreendeu, eu que acreditei e temos vivido muito bem estes últimos dias frios do inverno, antes que chegue a primavera e encurte-lhe ainda mais as saias e teste-me ainda mais a convicção de que não quero comê-la, se é que de fato não queira. Talvez (na verdade provavelmente) tenha sido só um lapso momentâneo de bom-meninismo que assustara não apenas a Marcella mas principalmente a mim mesmo, o ogro sempre disposto a trepar com qualquer fêmea que aponte o rabo à frente.
Escrito por cesarito às 22h20
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