(vinte de junho de dois mil e seis)
Quem assiste a filmes em tempos de Copa?
Tudo bem, concordo, tem uma Copa do Mundo rolando e pra quê perder tempo falando de qualquer outro assunto? Mas enquanto as coisas seguem seu curso normal na Alemanha (é assombroso o pequeno número de zebras) com exceção dos Ronaldos, que ainda não jogaram bola, assisti a alguns bons filmes (há tempo livre depois dos jogos!), com destaque para o belo Crianças Invisíveis.
São sete contos visuais dirigidos por pessoas diferentes, expondo diferentes pontos de vista, e em diferentes lugares (é tudo tão diferente), da “marginalização” infantil. É tudo muito bonito. Visualmente maravilhoso (e eu sou meio fresco pra essas coisas). A fórmula de algumas histórias é meio batida, aquela coisa que todo mundo já viu algumas vezes; mas noutras inexiste fórmula, o que as torna especialmente interessantes e até inusitadas, alcançando um nível de lirismo dificilmente visto em filmes de intenção séria (o formato aqui é de documentários).
O grande destaque (pelo menos pra mim que tava num estado de deschapação quando vi o filme numa única vez) fica por conta da montagem de John Woo. Me lembrou um pouco da “poesia visual grotesca” de Suehiro Maruo, mas sem o erotismo que guia a obra deste. Belíssimo e norteado de pequenas (ou não tão pequenas assim) tragédias cotidianas. Tudo num Japão onde as classes são separadas apenas pelos vidros dos importados.
Também muito boa é a montagem dos Scotts. Mais viajandona (mas quase infantil pra quem assistira dias atrás a Um Cão Andaluz), ela faz um fotógrafo tornar-se criança para trazer a seu público a guerra que ninguém vê. Também muito bonito, com destaque pra transformação do homem em menino.
Tem também uma montagem brasileira, dirigida por Kátia Lund (admito a ignorância, mas nunca ouvi falar dela – alguém disse que ela trabalhou em Cidade de Deus e fiquei propenso a acreditar, pois tem muito dele aqui e de fato tá escrito na capa do filme) que deve ter maior impacto pra alguém que não vê aquilo rolando nas ruas, como nós, brasileiros. Talvez até a montagem japonesa fique mais sem graça pra eles e eu tô aqui babando ovo numa coisa que é toda mimética. Acho que não. Nenhuma sociedade é tão poética. Infelizmente.
Escrito por cesar às 15h39
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