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agora posto tudo em http:\\coelhinhoschapados.blogspot.com
Escrito por cesarito às 01h15
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a Gabi
A menina aperta, com o dedo indicador inseguro, a campainha, que apita estridente e pode ser ouvida a vários metros na rua silenciosa. Antes que alguém atenda a porta, um pequeno vira-lata duns três anos corre para o portão como se soubesse que a visita era pra ele e bafora quente mostrando os dentes e a língua enquanto tenta balançar o toco do rabo cortado. Gabriela sorri e uma senhora aparece na janela com alguma pressa pra voltar; “dá um instantinho que eu não posso parar de mexer senão o doce empelota tudo”. Ela mal ouve aquilo. Estava ali pra ver o cachorrinho.
Depois de ouvir a história, dona Zuleika “com k, viu querida” convida-a para entrar e provar um pedaço do doce de banana ainda quente.
Entre uma mordida e outra na deliciosa especialidade da anfitriã, Gabriela conta sobre o destino fatal de Kika, a mãe do Prego, a quem viera visitar. Estava passeando ali por Águas da Prata porque era mais perto da faculdade que a distante Salvador, pra onde a família se mudara logo depois de dar a cachorrinho, único filhote da Kika, à desconhecida menina que pediu e disse que morava naquele endereço, e poderia reencontrar alguns velhos amigos do colégio naquele seu primeiro feriado prolongado longe dos pais.
Escrito por cesarito às 19h43
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Ela sempre demonstrou prazer muito maior em dizer as verdades mais duras que em sorrir e dizer algo pra deixar alguém feliz. Sempre até o dia em que Romualdo tentou, tentou e falhou tão desastrosamente que ele próprio acendeu o cigarro e disse antes que ela pudesse pensar: “Você não me dá tesão”.
Escrito por cesarito às 17h20
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seguindo uma trilha de tênues pingos
c’os olhos fechados
& as pontas dos pés doloridas
sobre superfície tão escura quanto os sonhozinhos fintardinos
Escrito por cesarito às 20h56
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Ela tinha os passos rápidos porque o asfalto estava quente & machucava-lhe os pés apesar da casca grossa & impermeável que os anos caminhando sobre as pedras da cachoeira haviam ajudado a cultivar. Tentava ganhar agilidade segurando a saia longa – cuja barra costumava raspar sobre a grama & pipocar daqueles espinhozinhos verdes que ela já criança chamava de “piolhos” – acima dos joelhos, mostrando um dedo de coxa que poderia levar o menorquino Luis Felipe a delírios que sequer atingia em seus momentos mais lisérgicos.
Segurava o enorme chapéu de palha com a mão esquerda & tentava disfarçar a vergonha por ter as tetas balançando dentro da blusa quase larga de renda branca, ainda que não tivesse platéia alguma.
Escrito por cesarito às 17h26
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academicismos
Firmino levantou-se seco, arrastando ruidosamente a cadeira pra tirar debaixo da mesa as pernas grandes & espaçosas que tanto cultivava nas academias da vida.
Queixou-se da recepção não tanto amistosa que tivera na calorenta noite anterior & de quão dura era sua vida de acadêmico.
Escrito por cesarito às 19h18
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fast foward
a respiração ofegante
era só saudade
da menina que arrastava suavemente
a cadeira para levantar-se,
ou era pra recuperar o fôlego
depois de acompanhar atentamente
às imagens em fast foward?
Escrito por cesarito às 18h09
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no interior do fundo falso
da gaveta de calcinhas
aline colecionava botões
Escrito por cesarito às 16h28
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solavancos & balanços de pedra
sob areias superconcentradas
tingidas em vermelho, azul & amarelo
num quadrado de concreto cinza
corroído pela acidez da chuva
que inconstante & insistente
cai sobre as crianças
de concreto que brincam aos solavancos
nos balanços das bossas
Escrito por cesarito às 01h45
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Ele não compreendia a mudança. Naquela noite ela chegou e o beijou como não fazia desde a primeira & frustrada gravidez. Treparam e dormiram abraçados. Já se passavam seis anos.
Não foi difícil perceber que a barriga dela crescia, assim como o sorriso. Era a mais que evidente prova de traição. Mas ele fora bem recompensado: ela tornara-se a mais dedicada dona de casa & as trepadas passaram a ser constantes.
Até que, depois do ultra-som, o médico disse que não existia bebê. Fora tudo criação da cabeça dela e a barriga crescia por vontade dela. Ela sequer ouviu o obstetra & marcou a cesariana. O médico ligou pra ele & ele chorou. Ela o consolou e treparam.
Sem saber como dizer a ela, ele teve que dormir os últimos meses no sofá.
Apesar da insistência do médico, foi feita a cesariana – parto normal dói demais – Quando ele e o obstetra foram dizer a ela que não havia filho, ela chorou. Já era o segundo que lhe roubavam naquele hospital. Da próxima vez mudaria de maternidade.

Escrito por cesarito às 13h23
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Escrito por cesarito às 19h37
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Caiu suavemente. Jogara-se do décimo andar. A multidão parou. Ninguém queria sujar os pés passando sobre os miolos.
Escrito por cesarito às 20h42
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Olhava atentamente para a lua procurando por um rosto conhecido. Talvez um sorriso fraterno o fizesse esquecer do calor de janeiro & dos mosquitos que ainda há pouco o importunavam. As pessoas à volta ele sequer notava, uma vez que o zumbido delas se confundia ao dos mosquitos e a procura na lua era muito mais interessante que qualquer passante num fim de mundo como Paliçadas, de onde todas as pessoas que tinham algo relevante a contar (ou mostrar) tinham se mandado há muito tempo.
Ele chegou a esboçar um sorriso quando finalmente escureceu & a lua ficou plena no céu.
Escrito por cesarito às 22h48
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ficção: Contículo Natalino
As pessoas não deveriam morrer no Natal, pensava Manoel enquanto esperava ansiosamente pelo Papai Noel num velório. “Aqui não tem chaminé e nem árvore de natal, mamãe, onde é que o Papai Noel vai deixar os presentes?” perguntou à mãe que estava plantada com os olhos cheios à frente do caixão onde jazia uma tia distante que o menino de seis anos sequer chegara a conhecer. “O Papai Noel não deve gostar de gente triste, e aqui só tem gente chorando...”, prosseguiu, ainda sem a atenção da mãe.
Saiu pisando firme. Deu algumas voltas pelo pequeno salão, machucou algumas flores e por fim sentou-se e abraçou o próprio corpo. Mas logo saltou novamente e foi tentar coloquiar com a mãe. Era a única criança ali e estava inquieta. Planejara não dormir naquela noite pra conhecer pessoalmente o Papai Noel. Pra ver o velhinho rechonchudo e de barba branca e receber dele a roupa do Batman que pedira. Talvez até ganhasse uma voltinha no trenó de renas. Depois, uniformizado, poderia combater o crime. Por isso não podia adormecer. Se o Papai Noel passasse por ali não teria sequer a árvore para deixar os presentes embaixo.
“Mamãe, a que horas o papai Noel vem? Tô com sono”. Manoel apagou antes que a mãe esboçasse resposta. Acordou já na manhã seguinte em sua cama sob o lençol xadrez. Correu descalço pra sala e lá estava, numa caixa retangular larga, seu tão aguardado presente. A mãe disse “Manoel, ele passou por aqui ainda há pouco, mas disse pra te deixar dormindo que você ia precisar de suas energias pra salvar o mundo”. E o menino vestiu-se feliz, apesar do encontro fracassado, e esperou anoitecer pra sair à rua e acabar com os vilões.
Escrito por cesarito às 15h50
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cada qual com seu par
cada par com seu qualquer
posso sonhar contigo
enquanto danças
seguindo a melodia
da velha caixinha de música
Escrito por cesarito às 15h49
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